Saiba por que devemos guardar pedaços da natureza

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Guardar fragmentos da natureza é essencial para o nosso futuro. Isso não significa que você deve colocar gravetos e folhas em uma gaveta: na verdade, o trabalho é feito por especialistas atuantes na área da biologia da conservação, responsável por proteger a variedade de vida na Terra e seus processos naturais.

Basicamente, o trabalho dos biólogos é preservar a natureza fora do ambiente natural dela, um método também chamado de conservação ex situ. Por meio do recolhimento e armazenamento de amostras biológicas, geológicas e ambientais, eles conseguem guardar células, tecidos, organismos, sementes, solos e fósseis. 

“Esses fragmentos funcionam como registros fundamentais da biodiversidade, permitindo documentar espécies, populações e ambientes, apoiar ações de conservação e restauração e garantir que informações essenciais não se percam em um cenário de degradação ambiental contínua”, explica a professora de biologia Lays Cherobim Parolin, especialista em conservação da natureza e educação ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Para a ecóloga Morgana Bruno, as amostras de pedaços da natureza são como se fossem “bibliotecas da vida”. 

“Muitas espécies guardadas hoje podem ser extintas amanhã, e esses registros permitem que cientistas do futuro estudem a biologia de seres que não existem mais na natureza”, diz a coordenadora do curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Brasília (UCB).

O que eles podem revelar para os cientistas?

Dentro dos fragmentos estão contidas diversas informações genéticas, morfológicas, químicas, ecológicas e evolutivas. Através da análise delas é possível obter várias respostas sobre questões ambientais importantes, incluindo os atributos da espécie e o acervo genético tanto das populações quanto dos ecossistemas em que estavam inseridas no momento da retirada. 

“Eles também permitem entender como as espécies lidam com mudanças ambientais, quais estratégias favorecem a adaptação e como a biodiversidade pode ser conservada ou restaurada em cenários de crise ambiental crescente”, diz a bióloga.

Outro fator importante é o papel deles na nossa vida. Lays aponta que as coleções ajudam a desenvolver medicamentos, identificando compostos bioativos benéficos a nós e avaliando se são seguros ou não.

A coleta de fragmentos da natureza para catalogar e armazenar é importante para garantir o futuro da pesquisa

Onde ficam guardados os fragmentos da natureza?

Por serem artigos tão importantes para o nosso futuro, os fragmentos não poderiam ficar armazenados em qualquer lugar. Eles costumam ser preservados em museus de história natural, bancos de sementes, zoológicos científicos e biobancos pertencentes a universidades e centros de pesquisa.

As amostras passam por cuidados específicos, além de serem padronizadas com base em informações sobre a data da coleta, registro, identificação e curadoria.

Recentemente, mais um desses locais abriu as portas para preservar o passado de olho no futuro. A fundação internacional Ice Memory (Memória do Gelo, na tradução em português) inaugurou o primeiro santuário do gelo na Estação Concordia, localizada na Antártida.

No “cofre de gelo” serão armazenados fragmentos de diferentes geleiras para que os cientistas possam estudá-los futuramente.

A abertura do local é mais um sinal da pressa dos pesquisadores em preservar o máximo de arquivos naturais possíveis diante do avanço cada vez maior do aquecimento global, que tem provocado o derretimento de geleiras e impactos climáticos na biodiversidade das florestas mundo afora.

“Preservar amostras hoje significa ‘congelar’ informações biológicas de um mundo em rápida transformação. Essas amostras permitirão avaliar respostas adaptativas ao clima, identificar limites fisiológicos das espécies e apoiar estratégias de recuperação ecológica e conservação futura”, alerta Morgana.

Geopolítica pode ajudar e atrapalhar a preservação dos fragmentos

É de conhecimento geral que os fragmentos pertencem ao próprio país onde foram coletados e os pesquisadores e as instituições são os responsáveis por armazená-los da forma correta. No entanto, isso não quer dizer um acesso limitado a outras nações.

Alguns acordos e tratados internacionais, como o Protocolo de Nagoya, determinam regras para a análise de recursos genéticos e a divisão justa e equitativa dos benefícios da utilização deles.

Quando há uma cooperação entre os países, o compartilhamento de informações internacionais é totalmente benéfico para construirmos um futuro ambiental mais responsável e justo para todos. O problema é quando disputas geopolíticas entram em jogo e dificultam as relações.

“A geopolítica pode dificultar quando existem desigualdades de poder, restrições excessivas ou práticas de colonialismo científico. Infelizmente ainda é comum que materiais biológicos e conhecimentos sejam levados para outros países sem retorno adequado”, conta Lays.

Fonte: Metropole

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