Nova Délhi busca "corredor seguro" para reduzir dependência russa e enfrenta desafios logísticos e financeiros.
A Índia negocia com os EUA uma autorização para importar petróleo venezuelano, visando reduzir a dependência da Rússia e contornar sanções.
A Índia, terceiro maior consumidor de petróleo do mundo, intensificou as negociações com os Estados Unidos para obter uma autorização que lhe permita importar petróleo venezuelano. A iniciativa de Nova Délhi busca estabelecer um “corredor seguro”, livre de sanções, para os barris da Venezuela, uma medida vista como indispensável para reduzir a significativa dependência do petróleo russo e, ao mesmo tempo, evitar possíveis sanções comerciais impostas por Washington.
A necessidade de uma alternativa imediata de petróleo pesado é um dos principais argumentos da Índia. Dados da consultoria Kpler indicam que as importações indianas de petróleo russo caíram para 1,1 milhão de barris por dia (bpd) nas primeiras semanas de janeiro, uma redução em relação a dezembro e bem abaixo do pico de 2 milhões de bpd registrado em meados de 2023. Embora refinarias estatais tenham aumentado compras, a gigante privada Reliance Industries não recebeu carregamentos russos em janeiro, sinalizando a urgência por novas fontes.
Desafios Geopolíticos e Logísticos na Rota Venezuelana
Recentemente, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, tiveram um contato de alto nível, concordando em aprofundar a cooperação energética. Contudo, apesar do avanço político, intermediários têm direcionado os primeiros carregamentos venezuelanos disponíveis para os Estados Unidos.
A preferência pela rota norte-americana se justifica pela rapidez, garantindo pagamentos em cinco dias, e pela clareza regulatória sob as ordens executivas de Washington, enquanto os envios para a Ásia ainda enfrentam incertezas devido a tentativas de embargo por credores da dívida venezuelana.
A escassez de suprimentos disponíveis para a Índia é agravada pelo caso da Nayara Energy, uma refinaria indiana tecnicamente apta a processar o petróleo pesado venezuelano. No entanto, 49,13% da Nayara pertence à russa Rosneft.
Fontes indicam que seria necessária uma autorização específica do Departamento do Tesouro dos EUA para que barris da Venezuela fossem processados por essa unidade, algo considerado improvável devido à participação russa. Isso mantém bloqueada uma das principais portas de entrada para o mercado indiano.
Além dos entraves logísticos e geopolíticos, uma possível retomada do fornecimento de petróleo entre os dois países esbarra na dívida acumulada. Empresas estatais indianas reivindicam de Caracas cerca de 1 bilhão de dólares em dividendos não pagos.
Essa quantia representa um obstáculo significativo, pois o novo governo venezuelano necessita de liquidez imediata. Fontes diplomáticas sugerem que a solução poderia envolver um acordo híbrido, no qual a Índia pagaria uma parte em dinheiro para aliviar o caixa venezuelano, adiando a recuperação total dos dividendos para um futuro de maior estabilidade econômica na Venezuela.
Diante desse cenário complexo, a Índia pressiona para que a autorização dos EUA seja acompanhada de mecanismos logísticos que garantam que o petróleo venezuelano chegue efetivamente aos seus portos, e não seja totalmente absorvido pelo mercado norte-americano. A operacionalização dos envios permanece condicionada à resolução desses passivos históricos e à garantia de um fluxo constante e seguro.


