O Brasil atravessa um momento de transformação nas concessões de espaços públicos, expandindo sua abordagem além de rodovias e aeroportos para incluir parques, praças e outros equipamentos urbanos. A participação do setor privado é vista como uma oportunidade para aumentar investimentos, melhorar a manutenção, elevar a qualidade dos serviços e aliviar o peso sobre o orçamento público. Contudo, surge um desafio importante: a confusão entre a administração de infraestrutura e a gestão de locais que têm significado histórico e cultural.
O arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl sintetizou essa nova visão ao afirmar que a prioridade deve ser a vida das pessoas, seguida pelos espaços e, por último, pelos edifícios. Durante anos, acreditou-se que a simples construção de praças e parques era suficiente para fomentar a vida urbana, mas a experiência mostrou que o sucesso desses espaços está mais ligado à sua capacidade de atrair pessoas e promover encontros do que à qualidade arquitetônica.
Essa mudança de perspectiva foi defendida por urbanistas como Jane Jacobs e William H. Whyte, que observaram que a vitalidade dos espaços públicos está ligada à interação social. Jacobs, por exemplo, descreveu o “balé das calçadas”, destacando a importância dos encontros cotidianos que transformam ruas e praças em locais vibrantes. Por sua vez, Whyte, ao estudar pequenas praças de Nova York, concluiu que o maior atrativo de um espaço público é a presença das pessoas.
Existem duas maneiras de analisar um espaço público. A primeira foca na infraestrutura, considerando contratos, manutenção, estacionamento, operação e receitas. A segunda, por outro lado, dá ênfase às pessoas: quem frequenta o local, quais são suas motivações para permanecer ali e como as relações se desenvolvem ao longo do tempo. Essa ordem de prioridades não é trivial, pois reflete o que se considera mais importante preservar.
Um exemplo claro dessa dinâmica é a Praça Roosevelt, em São Paulo, que ao longo dos últimos vinte anos evoluiu de um espaço subutilizado para um ambiente urbano significativo. A questão que deve ser feita é: qual é o verdadeiro valor desse espaço? Se a resposta se limitar à infraestrutura e às receitas geradas, a gestão será considerada limitada. Mas se se reconhecer que o valor maior reside na capacidade de promover convivência, diversidade e um senso de pertencimento, a abordagem da concessão deve mudar, focando na proteção das condições que sustentam esse ecossistema social e cultural.
Em um cenário urbano cada vez mais fragmentado, poucos lugares conseguem reunir pessoas de diferentes idades, origens e estilos de vida sem imposições externas sobre como essa convivência deve ocorrer. Esses espaços se tornam um patrimônio democrático que deve ser preservado.