Especialista alerta que quartos e banheiros concentram grande parte dos acidentes
Por: Dupla Comunicação
As quedas estão entre as principais causas de internações, perda de autonomia e redução da qualidade de vida entre pessoas idosas. Segundo o Ministério da Saúde, as quedas representam 62% das lesões não fatais em pessoas com mais de 60 anos. Já o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia estima que 40% dos idosos com 80 anos ou mais sofrem quedas todos os anos.
Embora muitas famílias associem esse tipo de acidente às ruas ou calçadas, especialistas alertam que a maior parte das quedas acontece dentro de casa. Segundo Rafael Alex Sobrinho, geriatra da Clínica Florence Recife, hospital especializado em cuidados paliativos e reabilitação, isso ocorre porque muitos idosos passam a permanecer mais tempo no ambiente doméstico à medida que envelhecem.
“Uma parte dos idosos passam por um processo de fragilidade, de sarcopenia e apresenta instabilidade postural. Isso faz com que eles fiquem mais restritos ao domicílio. Quando saem de casa, normalmente estão acompanhados”, alerta o especialista. “Já dentro de casa, onde passam a maior parte do tempo e têm menos vigilância, é onde acontecem a maioria das quedas, principalmente no quarto, no banheiro e no trajeto entre esses dois ambientes”, complementa.
O especialista explica que o problema não está apenas no envelhecimento, mas também na falta de adaptação da residência às necessidades do idoso. “É fundamental contar com a avaliação do geriatra, do fisioterapeuta e do terapeuta ocupacional para adequar a casa à nova realidade daquele paciente. Muitas vezes existem problemas de iluminação, excesso de obstáculos, tapetes, quinas de móveis e ausência de barras de apoio que aumentam muito o risco de quedas”, reforça.
A perda de massa muscular pode custar caro
Entre os principais fatores que favorecem as quedas está a sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva da massa e da força muscular durante o envelhecimento. Segundo o geriatra, esse processo compromete diretamente o equilíbrio e a capacidade de locomoção. “Gradativamente, o idoso vai perdendo massa muscular, substituindo esse tecido por gordura, que não tem força e não contribui para o equilíbrio. Além disso, surgem alterações articulares, neurológicas, perda da propriocepção e do equilíbrio natural do organismo, aumentando ainda mais o risco de quedas”, explica o geriatra Rafael.
Para reduzir esse risco, o fortalecimento muscular deve ser incentivado e fazer parte da rotina do idoso. “O combate a sarcopenia passa por uma alimentação rica em proteínas e pela prática regular de atividade física voltada para ganho ou manutenção da força muscular. O ideal é a musculação, mas pilates, hidroginástica e outros exercícios resistidos também oferecem excelentes resultados”, orienta.
Revisão de medicamentos e adaptação da casa fazem diferença
A perda muscular é apenas uma parte que influencia no aumento de quedas em idosos. Outros fatores podem favorecer episódios de tontura, sonolência e desequilíbrio, que aumentam o risco de quedas. “É importante revisar as medicações, principalmente aquelas que induzem sono, alguns remédios para pressão arterial e relaxantes musculares. Também devemos avaliar a visão, a audição e adaptar o ambiente doméstico para reduzir os riscos”, afirma o especialista.
Entre as mudanças recomendadas estão melhorar a iluminação dos cômodos, retirar tapetes soltos, organizar fios elétricos, instalar barras de apoio no banheiro e utilizar calçados fechados, antiderrapantes e adequados.
Repouso absoluto nem sempre é a melhor estratégia após uma queda
Um erro comum das famílias é limitar as atividades do idoso depois de uma queda, acreditando que isso evitará novos acidentes. Porém, segundo o especialista, essa atitude produz justamente o efeito contrário.
“O que nunca podemos fazer é restringir o idoso ao domicílio depois de uma queda. Se ele caiu indo ao mercado, por exemplo, não significa que nunca mais deva sair. O correto é oferecer supervisão, adequar o calçado e criar condições para que ele continue realizando suas atividades”, orienta Rafael Alex Sobrinho.
Ptofobia: medo de cair pode iniciar um ciclo perigoso
Outro fator que preocupa os especialistas é a chamada “ptofobia”, o medo de cair novamente. Esse receio faz com que muitos idosos deixem de lado uma vida mais ativa, permaneçam mais tempo sentados, favorecendo um ciclo de perda funcional.
“Uma queda anterior é o principal fator de risco para uma nova queda. Muitas vezes isso acontece por causa da ptofobia. O idoso começa a evitar atividades, fica mais tempo parado, perde força muscular, piora o equilíbrio e aumenta ainda mais o risco de novos acidentes”, alerta o geriatra.
Para interromper esse ciclo, a reabilitação após uma queda deve começar o quanto antes. “É fundamental estimular esse idoso a continuar ativo. A fisioterapia tem papel essencial, com exercícios específicos para fortalecimento muscular, treinamento do equilíbrio, coordenação motora e adaptação às atividades do dia a dia. Isso melhora o equilíbrio, devolve confiança e reduz o risco de novas quedas”, explica Rafael.