As leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornaram obrigatórias as aulas de História e Cultura Afro-Brasileira e de povos indígenas nas escolas, ainda não conseguem ser plenamente implementadas no Brasil. Apesar de serem consideradas um avanço nas políticas educacionais, a realidade mostra que sua aplicação é limitada por diversos problemas, especialmente relacionados à formação de professores. Isso indica que o país ainda está distante de estabelecer uma educação verdadeiramente antirracista.
Essas constatações estão presentes no artigo "Avanços e Desafios na Implementação da Educação Antirracista no Brasil", assinado por Ana Tereza Reis da Silva, Bárbara Ribeiro Dourado Pias de Almeida e Lurian José Reis da Silva Lima. Publicado na Educação em Revista em 2025, o estudo analisa a situação educacional brasileira sob três ângulos: a compreensão do racismo como um fenômeno estrutural, os desafios enfrentados pelas instituições para aplicar a legislação e a percepção de futuros professores sobre sua preparação para abordar as relações étnico-raciais.
Pesquisas realizadas em 2023 pelo Instituto Geledés e pelo Instituto Alana revelaram que sete em cada dez secretarias municipais de educação realizam poucas ou nenhuma ação para garantir o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas. Essa falta de iniciativas resulta em uma abordagem esporádica do tema nas salas de aula, com discussões pontuais em datas como 13 de maio e 20 de novembro. Essa abordagem fragmentada pode reforçar estereótipos, em vez de promover reflexões profundas sobre racismo e desigualdade racial.
O estudo identifica vários fatores que dificultam a efetivação da educação antirracista, incluindo a escassez de recursos financeiros, a baixa adesão dos gestores escolares e a falta de prioridade institucional. Um dos principais obstáculos, no entanto, é a formação inadequada dos professores. Muitos educadores relatam insegurança ao tratar do tema em sala de aula, uma vez que não receberam preparação específica durante a graduação. Um dado alarmante do estudo mostra que 26 dos 36 educadores participantes afirmaram nunca ter participado de qualquer formação sobre racismo ao longo de suas carreiras profissionais.
As atividades realizadas durante o estudo permitiram que os educadores revissem suas próprias experiências de discriminação. Um dos participantes relatou: "No primeiro dia eu não consegui falar nada, porque pra mim foi voltar ao passado e reviver algumas das situações de racismo que eu já sofri." Para os autores, essa vivência indica que a educação antirracista pode também ser um espaço importante para escuta, elaboração e fortalecimento das pessoas afetadas pelo racismo.
Os autores defendem, em continuidade ao primeiro artigo, que a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) seja obrigatória em todos os cursos de licenciatura. Além disso, recomendam a adoção de metodologias participativas, como o sociodrama e a escrita epistolar, que podem estimular a reflexão crítica, a autocrítica e o diálogo sobre experiências de discriminação.