O Brasil enfrenta atualmente um grande desafio: avançar nas políticas públicas em áreas essenciais, como educação, saúde e segurança pública, enquanto busca aumentar os investimentos em infraestrutura e ciência e tecnologia. Essa situação ocorre em um contexto de "extremo engessamento orçamentário", conforme indica o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de agosto, divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI) em 20 de agosto de 2026.
O relatório destaca que as despesas do governo continuam a crescer de forma "contínua e veloz", englobando tanto as despesas obrigatórias quanto as chamadas "discricionárias rígidas", que, apesar de não serem obrigatórias, não podem ser cortadas na prática. Durante uma coletiva de imprensa, o diretor da IFI, Alexandre Andrade, ressaltou que houve uma piora no déficit primário estrutural nos dois primeiros trimestres de 2026, em grande parte devido ao aumento das despesas, mesmo com o crescimento da receita.
Andrade comentou que os dados sugerem uma maior folga no cumprimento da meta fiscal para 2026. Avaliações bimestrais anteriores já indicavam que o governo conseguiria atingir essa meta, e a situação foi favorecida pelo choque nos preços do petróleo, resultado do conflito no Irã, que provocou um aumento significativo nas receitas governamentais, especialmente nos meses de maio, junho e julho. "Isso deve garantir um cumprimento com relativa folga", afirmou.
Entretanto, o diretor da IFI alertou que a situação favorável pode não se manter. "A questão maior que se coloca é para o ano que vem. Isso tende a se esgotar ao longo do tempo. As receitas não vão conseguir crescer indefinidamente nos próximos anos", previu Andrade.
O relatório estima um déficit estrutural de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) até o segundo trimestre de 2026. A IFI reconhece que a equipe econômica tem trabalhado para melhorar a execução orçamentária, mas ressalta que fatores como a legislação eleitoral e a redução das despesas com o Bolsa Família, além do aumento das receitas devido à alta dos preços do petróleo, impactam a situação fiscal.
Nos primeiros sete meses do ano, o governo central registrou um déficit primário efetivo de R$ 81,2 bilhões. Embora a receita líquida tenha crescido 6,0%, superando a inflação, as despesas aumentaram 6,3% em termos reais. Tanto a IFI quanto o governo projetam um déficit primário efetivo em torno de 0,4% do PIB para 2026.