O mercado automobilístico brasileiro presencia um marco histórico com o início da produção de veículos híbridos e elétricos pela Great Wall Motor (GWM) Brasil, em Iracemápolis (SP). A nova fábrica, inaugurada recentemente, representa a primeira unidade de uma montadora chinesa a fabricar no Brasil e nas Américas.
O presidente Lula da Silva, presente na inauguração, incentivou a GWM a usar o Brasil como base estratégica para expansão na América Latina, transformando o país em uma plataforma de exportação.
A GWM reaproveitou a estrutura de uma antiga fábrica da Mercedes Benz, adquirindo robôs do Japão e importando linhas de produção da China, onde foram testadas antes de serem enviadas ao Brasil. A empresa focará no segmento de SUVs tecnológicos, com preços entre R$199 mil e R$325 mil.
A estratégia da GWM se diferencia da BYD, que também inaugurou um complexo industrial na Bahia. Enquanto a BYD promete produzir SUVs híbridos plug-in e elétricos, a GWM já está montando carros em São Paulo, aproveitando a isenção fiscal para montagem de veículos a partir de CKD (carros desmontados).
A GWM planeja nacionalizar a produção, buscando ter uma cadeia de fornecedores locais e atender aos requisitos de índice de nacionalização do Mercosul, visando exportar para os países da região. A empresa vendeu 29 mil unidades em 2024 e 16 mil no primeiro semestre deste ano.
A chegada da GWM e outras montadoras chinesas, como JAC e Cherry, além de novas marcas como Neta, Omoda & Jeecoo, Gac e Zeekr, e a possível vinda de Changan, FAW, DongFeng e BIAC, podem elevar o número de marcas chinesas no mercado brasileiro para cerca de 16.
Esse movimento tem gerado preocupação entre as montadoras já instaladas no Brasil, que não anteciparam a demanda por carros elétricos de luxo e não se prepararam para competir com os chineses. Em busca de apoio governamental, o setor busca novas medidas de incentivo, além do Programa MOVER, que oferece créditos tributários para investimentos em pesquisa, desenvolvimento, eficiência energética e conteúdo local.
Enquanto isso, montadoras com operações no Brasil, por meio da Anfavea, preparam um pacote de medidas de reindustrialização para apresentar ao governo, buscando reduzir a carga de impostos. Mesmo a Stellantis, com fábrica em Pernambuco, mantém seus planos de fabricar carros a combustão, apesar dos movimentos da BYD.
A Anfavea critica o modelo de montagem CKD/SKD adotado por algumas empresas chinesas, argumentando que ele gera menos empregos indiretos em comparação com as plantas automotivas nacionais com processos de produção mais complexos.
A aproximação do governo com a China tem gerado tensões. O presidente Lula expressou admiração pelo país asiático, ressaltando sua importância como parceiro comercial. A Anfavea, sentindo-se menosprezada, tem orientado suas associadas a se desfiliar da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).