A defensora pública Débora Andrade dedica sua carreira a garantir justiça para quem mais precisa, com foco especial nos últimos dois anos em mulheres vítimas de violência que buscam apoio na Defensoria Pública de Pernambuco. Sua missão vai além do suporte jurídico, oferecendo um caminho para recomeçar.
Débora Andrade, que atua no estado, compreende a importância do papel do Estado na transformação de vidas, independente de classe social, cor ou idade. Durante sua jornada acadêmica e a busca pela aprovação no concurso público, ela sempre questionou o papel da Justiça e do Estado na sociedade.
“A Justiça serve, afinal, para quê e para quem? Quando tratamos de igualdade, é mesmo verdade que todos são iguais em direitos e deveres?”, questionou Débora em seu discurso de posse em 2021.
Essas reflexões moldaram seu objetivo de garantir a dignidade daqueles que necessitam da Defensoria Pública. Suas indagações sociais estão intrinsecamente ligadas à sua história e às conquistas possibilitadas pelo sonho de sua mãe. Nos últimos anos, ela compreendeu o impacto do Estado na reconstrução de vidas e na garantia de oportunidades para todos.
Natural de Aracaju, Sergipe, Débora teve uma infância difícil. Após a separação dos pais, a mãe passou a trabalhar como faxineira para sustentar a família, priorizando alimentação e educação.
“Com dez anos de idade, minha estrutura familiar começou a se desfazer. Fui incluída em um programa para crianças em vulnerabilidade chamado Criança Cidadã. Nesse projeto, me deparei com as restrições que a falta de dinheiro traz na vida das pessoas e comecei a perceber que, se eu não estudasse, não ia ter condições de mudar essa realidade”, recorda.
Ainda na adolescência, com o apoio de professores, Débora ingressou em um curso técnico. “O Estado mais uma vez interveio na minha trajetória. Fui incluída em um programa de assistência social para ser uma espécie de menor aprendiz. E nessa época vários mentores, docentes e profissionais da escola acabaram me adotando e me orientando para a vida”, relata.
Ela obteve uma bolsa integral do Prouni e se tornou a primeira de sua família a concluir o ensino superior. Mais tarde, tornou-se defensora pública.
“Quando conheci a Defensoria Pública, percebi que teria oportunidade de estar mais perto da mesma população de onde eu venho. De todas as carreiras do Judiciário, a Defensoria é a única que tem maior proximidade com a população vulnerável, sem recursos, que mora em periferia, que é apagada, esquecida”, define.
Desde julho de 2023, Débora coordena o Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), no Recife, responsável por acolher, orientar e prestar assistência jurídica para efetivação da Lei Maria da Penha, além de trabalhar na proteção dos direitos sexuais e reprodutivos e na elaboração de políticas públicas para a igualdade de gênero.
Em Pernambuco, entre janeiro e outubro deste ano, foram registradas 34.832 queixas de violência doméstica/familiar.
“Normalmente, as mulheres chegam no núcleo bastante fragilizadas. O fenômeno da violência doméstica faz com que a vítima passe por reiteradas violências antes de fazer a denúncia. Isso porque é um tipo de crime em que o autor da ação é uma pessoa do seu afeto, da sua relação íntima. A mulher pondera, por inúmeras circunstâncias, como emocionais e financeiras, antes de resolver fazer a denúncia”, explica Débora.
Em 2025, o núcleo já atendeu mais de 12,5 mil vítimas de violência.