Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, investigou como a duração da depressão influencia as mudanças estruturais no cérebro. Publicados na revista Scientific Reports, os resultados indicam que não apenas a gravidade dos sintomas, mas também a cronicidade da doença desempenham um papel crucial nas alterações observadas nas redes cerebrais.
Os cientistas analisaram imagens cerebrais de 46 pacientes diagnosticados com transtorno depressivo maior (TDM), caracterizado por sentimentos persistentes de tristeza e desesperança. A pesquisa sugere que a duração da depressão, especialmente em casos crônicos que duram mais de 24 meses, está ligada a padrões distintos de conexão entre duas redes funcionais significativas do cérebro: a Rede Executiva Central e a Rede de Modo Padrão.
Tamires Zanão, bolsista de pós-doutorado da Fapesp na Faculdade de Medicina da USP e primeira autora do estudo, destaca que a Rede Executiva Central está envolvida em funções como atenção e planejamento, enquanto a Rede de Modo Padrão está relacionada a processos internos, como autorreflexão e memória. A interação equilibrada entre essas duas redes é fundamental para o funcionamento saudável do cérebro.
Entretanto, o estudo aponta que, na presença da depressão, esse equilíbrio pode ser comprometido, resultando em uma predominância de pensamentos introspectivos com viés negativo. Essa descoberta ajuda a explicar as diferentes manifestações da depressão entre os pacientes e pode orientar o desenvolvimento de tratamentos mais personalizados no futuro.
Os dados utilizados na pesquisa foram obtidos a partir de um ensaio clínico coordenado pelo professor André Brunoni, atualmente na University of Texas Southwestern Medical Center. Durante o pós-doutorado de Zanão na Universidade de Oxford, as análises foram realizadas com o apoio da Fapesp, que também financiou o estudo por meio dos projetos 12/20911-5, 22/03266-0 e 23/13893-5.
A compreensão dessas interações cerebrais é fundamental, pois a escolha dos tratamentos para a depressão frequentemente requer um ajuste individualizado, que varia de paciente para paciente. Embora os achados representem um avanço significativo no entendimento da depressão, os pesquisadores enfatizam que mais dados são necessários para que essas informações possam influenciar decisivamente as práticas médicas no atendimento clínico.