Um grupo de mulheres envolvidas com o futebol de várzea em São Paulo se movimenta há cerca de quatro anos contra os crescentes casos de violência de gênero ocorridos no país. Batizado de Mulheres da Várzea, o coletivo já homenageou Tainara Souza Santos e agora empunha bandeiras com o nome e o rosto de Eliza Samudio – ambas vítimas de feminicídio.
“Esse movimento já vem desde 2022, com a gente levantando a bandeira [da violência contra a mulher]. A gente não levantou agora por ser ano político, e nem porque o caso da Tainara teve repercussão nacional. A gente já levanta isso há muito tempo”, disse Sandra Aparecida Pereira, de 57 anos, fundadora e presidente do coletivo.
Sandra conta que, desde que o movimento tomou forma, ela já se envolveu em mais de 100 torneios de futebol de várzea, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
As integrantes do grupo vão às partidas com faixas e bandeiras, chamando atenção para os casos de feminicídio, e pedindo o fim da violência contra a mulher. Elas também convocam manifestações e se articulam entre artistas e políticos, pensando na repercussão do problema e em formas de combatê-lo.
“A nossa bandeira principal é o combate à violência contra a mulher”, destacou Sandra.
A presidente do coletivo ressaltou ainda que não são apenas torcedoras que compõem o Mulheres da Várzea, mas também trabalhadoras envolvidas com a categoria, como: árbitras, cozinheiras e treinadoras, por exemplo.
Por Tainara e por Samudio
O coletivo Mulheres da Várzea homenageou Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada pelo ex por 1 km na Marginal Tietê, na zona norte da capital paulista, em uma manifestação no último 29 de novembro. O ato ocorreu no mesmo local do crime. A vítima morreu após pouco menos de um mês internada, na véspera de Natal (24/12), aos 31 anos de idade.
“Eu não cheguei a conhecer a Tainara pessoalmente, mas ela era torcedora do Apache da Vila Maria [time de várzea da zona norte]. Quando eu fiquei sabendo do atropelamento, a diretoria da torcida Terror Azul fez contato comigo e falou que era uma de nós, uma das nossas. Aí foi quando eu me posicionei. Falei: ‘não, agora mexeu com uma, mexeu com todas’”, contou Sandra.
A fundadora do coletivo destacou que o ato não teve teor político, e que “quem foi para as ruas pedir o fim da violência e pedir justiça por Tainara foi a comunidade, a favela, foram as pessoas humildes”.
O grupo organiza uma nova manifestação para o dia 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, no mesmo local. “Essa manifestação sempre vai levar o nome da Tainara Souza”, afirmou.
Agora, o movimento também leva para jogos e manifestações o rosto e nome de Eliza Samudio, morta aos 25 anos pelo ex-goleiro Bruno Fernandes de Souza, em 2010. Sandra lembrou que a modelo também era atleta, e jogava futebol.
“A Elisa, na realidade, já estava [em bandeiras] desde o ano passado, porque, há dois anos, o goleiro Bruno foi cogitado de vir jogar em um time de várzea aqui da zona sul de São Paulo”, contou Sandra.
Imediatamente após terem conhecimento da possibilidade de Bruno, condenado por feminicídio, jogar no futebol de várzea paulista, as mulheres envolvidas com a categoria passaram a se movimentar.
Bruno chegou a ser mencionado como uma escolha para participar de uma das principais copas da várzea paulista, o que gerou revolta e indignação.
“Quando veio ao meu conhecimento, eu fui bater nas redes sociais. Eu falei: ‘na nossa várzea de São Paulo, não’. Coloquei toda a mulherada para comentar ‘Eliza Samudio presente’. Coloquei um monte de mulher. Aí o organizador da copa, no dia seguinte, me ligou e falou: ‘olha, Sandra, o goleiro Bruno não vem’”, relatou a fundadora.
Apesar das conquistas enquanto movimento, Sandra relatou que se sente impotente diante dos casos de violência. “Mesmo tendo gerado uma comoção muito grande, de ter muita gente, pessoas se manifestando, ainda tem muitos agressores de mulheres”, lamentou.
“A pena de morte não está sendo dada para os agressores. A pena de morte não está sendo dada para nós, mulheres, por sermos mulheres, por sermos bonitas, por sermos alegres”, enfatizou a presidente do coletivo.
Apoio jurídico, social e psicológico
A assistente social Natália Moreira da Silva, de 35 anos, torcedora do Ajax da Vila Rica, na zona leste de São Paulo, e integrante do Mulheres da Várzea, afirmou que o grupo fornece apoio jurídico, social e psicológico às vítimas de violência de gênero.
“Através do nosso movimento, damos voz a milhares de mulheres que sofrem silenciadas pelo medo e pela impunidade que nos cerca”, disse. Segundo ela, as integrantes do coletivo trabalham para a “emancipação dessas mulheres”, e lutam por “políticas públicas efetivas no combate a violência de gênero”.
A assistente social conta que sobreviveu a agressões motivadas pelo gênero, assim como outras organizadoras do grupo. Para elas, é importante a conscientização tanto dos homens como das mulheres que frequentam o futebol de várzea.
Recepção masculina
Conforme Natália, os homens varzeanos, em sua grande maioria, mostram respeito e aceitação ao movimento. O sentimento é expresso principalmente pelos organizadores dos principais torneios, além dos diretores e presidentes de times de expressão.
“Porém, há algumas exceções. Recebemos muitos ataques virtuais de homens que não aceitam e não entendem o propósito do grupo”, relatou a assistente social.
Sandra reconhece que o grupo ainda enfrenta um pouco de resistência por parte do público masculino, mesmo que de uma pequena parcela. “Homem é amigo de homem, não tem jeito”, disse.
“Alguns são resistentes, mas a maioria sabe a importância, eles conhecem a importância disso. Mas fechar as portas, nenhum”, apontou.
A presidente relatou que 90% dos seguidores da página no Instagram são mulheres. “Como eu tô falando, eles não fecham as portas, mas eu gostaria que eles dessem mais apoio nas redes sociais”, desabafou.
Mulher varzeana ganha datas comemorativas
Sandra comemorou a repercussão recente atingida pelo Mulheres da Várzea. Em uma semana, a página ganhou mais de 15 mil novos seguidores, mas também conquistou feitos importantes para além das redes sociais.
A presidente participou da formulação do Dia da Mulher Varzeana, data comemorada em 9 de março e instituída pela pela Lei Estadual 17.929/2024. O projeto foi idealizado por Sandra, em parceria com a deputada estadual Carla Morando (PSDB).
Na capital paulista, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) instituiu, em dezembro de 2023, a Semana da Mulher da Várzea, que inicia em 8 de março e segue pelos sete dias seguintes.
Em Mauá, na Grande São Paulo, o município aproveitou o dia 9 de março, já previsto no calendário estadual, para celebrar o Dia Municipal da Mulher Varzeana. O objetivo é homenagear todas aquelas que participam do futebol amador, seja de forma profissional ou como torcedora.
“É um movimento que tende a crescer muito. Quando se fala de mulheres, é um leque enorme. Dá pra falar de vários temas”, afirmou Sandra.
Ela conta que, com a repercussão, especialmente após o atropelamento de Tai, mulheres do Brasil inteiro a procuram. Os contatos têm motivações diversas: seja para pedir ajuda, para apoiar a campanha, ou para comprar camisetas do coletivo.
Atualmente, um grupo no WhatsApp reúne mais de 250 mulheres de todo o estado, que assumem posições de organização do coletivo, quando necessário.
“É um trabalho voltado totalmente para a mulher. A gente vai continuar brigando”, enfatizou a presidente e fundadora do Mulheres da Várzea ao Metrópoles.