Campanha publicitária com Fernanda Torres gera polêmica política, mas consumidores priorizam qualidade do produto, mantendo vendas aquecidas.
Apesar do chamado a boicote por políticos de direita, lojas da Havaianas em São Paulo e Rio de Janeiro mantiveram-se cheias, especialmente no Natal.
As lojas da Havaianas nas capitais paulista e fluminense registraram movimento intenso e até filas nos dias que antecederam o Natal, contrariando um chamado de boicote impulsionado por políticos de direita. Gerentes em São Paulo relataram à Folha que não houve alteração no fluxo de clientes, com os estabelecimentos lotados para as compras de fim de ano, e sem qualquer manifestação ou protesto visível.
A Agência France Press também documentou filas em unidades do Rio de Janeiro, evidenciando que a polêmica nas redes sociais não se traduziu em menor volume de vendas.
A controvérsia teve início com uma campanha publicitária da marca, estrelada pela atriz Fernanda Torres, na qual ela expressa o desejo de que o público comece 2026 “com os dois pés”, em vez de apenas “com o pé direito”. Essa frase foi interpretada por figuras como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como uma alusão política velada, associando-a a uma suposta posição ideológica da marca, o que gerou a convocação para o boicote online.
Reação dos Consumidores e Impacto no Mercado
Entre os consumidores ouvidos, a maioria – cinco de dez – afirmou sequer ter visto o comercial. Dos que o viram, três disseram não se incomodar com a mensagem.
Apenas dois criticaram a empresa, mas um deles, o aposentado Giácomo Bianchini, 72, autodeclarado bolsonarista, ainda assim comprou um chinelo para presentear o filho, sob pressão da esposa, após não encontrar opções de outras marcas. Essa dinâmica reflete um cenário onde a preferência pelo produto muitas vezes supera as questões ideológicas levantadas.
A repercussão da campanha não ficou restrita às redes sociais. No mercado financeiro, a Alpargatas, empresa controladora da Havaianas, registrou uma queda significativa em suas ações na B3, a bolsa de valores brasileira, no dia 22 de dezembro.
Paralelamente, um incidente isolado em Brusque (SC) mostrou uma loja esgotando seu estoque de chinelos da marca em menos de meia hora, após vendê-los a R$ 1, em meio ao movimento de boicote, evidenciando a complexidade e as diferentes frentes de reação à polêmica.
As opiniões dos clientes são diversas. Enquanto o empresário João Soares, 64, considerou o protesto “correto” e afirmou que deixaria de usar a marca, a aposentada Zuleica Maranhão, 69, classificou a situação como “bobagem”, defendendo a separação entre “produto é produto, política é política”.
Ela enfatizou a importância da qualidade e da utilidade dos chinelos, que comprou para presentear a família. O bancário Diego Silva, 36, reforçou que o essencial era comprar um chinelo para seu filho, desvalorizando a sutileza da propaganda.
No geral, a percepção predominante entre os consumidores é que a qualidade e a funcionalidade do produto são os fatores mais importantes na decisão de compra, superando a polêmica da campanha. A maioria dos clientes parece dissociar a marca da interpretação política atribuída à sua publicidade, mantendo a lealdade ao produto em meio à polarização que permeia o cenário nacional.