Seja pela loteria, bets ou games do tipo “tigrinho”, a maior parte dos apostadores apresenta sinais de vício em jogos de azar. É o que revela o estudo “Apostadores no Distrito Federal Diagnóstico comportamental e sociodemográfico”, produzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Família (Sefami-DF).
Grande parte dos apostadores reconhecem ter tentado recuperar dinheiro perdido com apostas fazendo novos jogos. Outros confessaram ter ficado mais tempo do que pretendiam nas apostas e até mesmo tentado parar. Do ponto de vista da população, os principais problemas causados pelos jogos de azar são o endividamento, brigas de família, ansiedade, culpa e o arrependimento.
O estudo entrevistou 1.827 homens e mulheres, entre 8 a 25 de setembro de 2025. Segundo a pesquisa, o número de pessoas que fizeram algum tipo de aposta nos últimos 12 meses é de mais de um terço (35%), valor superior ao verificado no Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool e Outras Drogas (Lenad) de 2024 para o Centro-Oeste (18,7%).
Foram mapeadas as apostas problemáticas, quando o hábito traz prejuízos e riscos para a vida do indivíduo e indicam vício. Neste recorte da pesquisa, as perguntas foram feitas para os apostadores. Entre os entrevistados, 30,9% afirmaram já ter tentado recuperar o dinheiro perdido com apostas, enquanto 28,1% reconheceram ter gasto mais tempo do que pretendiam apostando. Além disso, 26% relataram já ter tentado parar ou reduzir a frequência das apostas.
Outros efeitos negativos com indicativo de vício também foram identificados, ainda que em menor proporção: cerca de 13,1% afirmaram ter gasto mais dinheiro do que podiam; 9,3% disseram que a condição de saúde foi afetada pelo hábito de apostar; e 8,8% admitiram esconder o comportamento de alguém próximo. Por fim, 6,1% dos respondentes declararam que as apostas já causaram problemas financeiros para si ou para a família.
A maioria dos entrevistados discordou da ideia de que apostar seja uma forma de tentar melhorar a situação financeira: 58,6% declararam discordar totalmente dessa afirmação, enquanto 10,3% discordaram parcialmente. Por outro lado, 14,5% concordaram parcialmente e 13,5% concordaram totalmente. Apenas 3% afirmaram não ter opinião formada sobre o tema.
A maior parte dos entrevistados reconhece que a aposta pode trazer consequências negativas para a vida do indivíduo: 93,8% responderam afirmativamente à questão, enquanto 3,6% afirmaram que não, e 2,6% avaliaram que os impactos dependem do tipo de jogo.
Para a diretora de estudos e políticas sociais do IPEDF, Marcela Machado, o alerta é gritante.
“Essa é um parte da pesquisa que identifica sinais de vício ouvindo a própria pessoa que aposta. São os achados que consideramos mais preocupantes. Porque a pessoa joga, sabe que é pernicioso, que já apresentou problemas para ela, mas continua jogando. Se ela está jogando e sabe que é problemático, isso pode ser indicativo de um sinal de vício ou de comportamento de risco”, afirmou.
Impactos
Com relação aos impactos negativos para a vida do indivíduo, segundo a perspectiva da população – ou seja, contando com relatos de apostadores e não apostadores – o problema mais mencionado foi o endividamento ou a perda de dinheiro, com 51,6% das respostas. Em seguida, aparecem os problemas familiares ou conjugais (37,2%) e sentimentos de ansiedade, culpa ou arrependimento (34,7%).
Outros efeitos apontados foram a perda de controle sobre o próprio comportamento (32,2%) e o isolamento ou afastamento social (28,2%). No Raio-X do Investidor Brasileiro (ANBIMA), 47% dos apostadores no Brasil estão com dívidas em atraso.
Por que aposta?
Sobre as motivações para jogar, o ganho financeiro aparece como principal razão declarada para apostar (85,5%), embora a maioria tenha relatado nunca ter obtido ganhos significativos. Entre os que ganham, predomina o uso do dinheiro para realizar novas apostas, evidenciando um ciclo contínuo de adesão aos jogos e de realimentação das expectativas de ganho. Em proporção menor, 11,1% afirmaram apostar por prazer ou diversão e 7,3% para socializar com familiares ou amigos.
Paralelamente, parcela importante dos apostadores relata comportamentos associados ao risco, como tentativa de recuperar perdas, uso frequente das plataformas e comprometimento de recursos que deveriam ser destinados a despesas essenciais, além de impactos na saúde. Esses padrões reforçam a conexão entre práticas de jogo, endividamento e agravamento da vulnerabilidade financeira.
Em relação à forma como conheceram as modalidades de aposta, 41,1% relataram ter sido influenciados por propagandas em rádio ou televisão. Outros 24,7% conheceram por meio de propagandas na internet ou redes sociais.
Além disso, 23,8% conheceram por amigos ou colegas de trabalho que jogam. A influência de familiares foi citada por 14,1% dos respondentes, enquanto 6,9% apontaram os influenciadores digitais como meio. A figura 13 apresenta as maneiras como os apostadores conheceram as modalidades em que jogam por categoria de jogo.
Para onde vai o dinheiro?
Quanto ao destino do dinheiro obtido em apostas, 47% afirmaram nunca ter ganhado. Entre os que já obtiveram ganhos, 27% disseram usar o valor para realizar novas apostas e 16,3% para pagar contas de casa ou aluguel.
Outros 11,3% utilizam para quitar dívidas em atraso. Do total, 9,7% declararam utilizar o dinheiro para lazer; 4,2% para compra de produtos alimentícios, de higiene ou limpeza; e 2% para bebidas alcoólicas. Percentuais menores foram observados entre os que guardam ou investem o dinheiro (1,6%), compram remédios (1,1%) ou outras drogas (0,3%).
Prática ambígua
A população enxerga as apostas como uma prática ambígua: ao mesmo tempo em que há divisão quanto à regulamentação, há consciência dos riscos associados, especialmente os financeiros. A compreensão majoritária de que as apostas agravam desigualdades e podem provocar endividamento, conflitos familiares e perda de controle indica que, para a maioria do DF, o impacto negativo supera possíveis benefícios.
A maioria dos entrevistados considera que as apostas agravam as desigualdades sociais. Entre os respondentes, 76,9% afirmaram acreditar que os jogos de aposta intensificam essas desigualdades, 18,7% não compartilham dessa percepção e 4,4% avaliaram que o impacto depende do tipo de jogo.
Segundo o IPEDF, ao articular essas evidências sobre o perfil socioeconômico dos apostadores, o alcance das modalidades digitais e as transformações geracionais no padrão de consumo, constata-se que o fenômeno das apostas no DF ultrapassa a esfera do lazer e se relaciona diretamente à reprodução de desigualdades sociais.


