Cooperação militar intensificada visa grupos terroristas, mas a retórica de Washington sobre o conflito gera atrito diplomático.
A Nigéria confirma coordenação com os EUA para novos ataques contra extremistas, enquanto a retórica do presidente Trump sobre o conflito gera divergências diplomáticas.
A Nigéria está em uma nova fase de cooperação militar com os Estados Unidos, com o ministro das Relações Exteriores, Yusuf Tuggar, confirmando a disponibilidade do país para acertar novos ataques contra grupos extremistas. A declaração, feita na última sexta-feira à Channels Television, segue uma intervenção militar norte-americana no dia de Natal, que o Pentágono sugeriu ser apenas o início de uma série de ações.
Autoridades nigerianas de alto escalão, sob anonimato, indicam que novos ataques das forças armadas dos EUA são esperados, intensificando os esforços coordenados.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que republicou o anúncio do ataque na sexta-feira, tem demonstrado uma abordagem de política externa que, apesar da promessa de retirar as tropas americanas de conflitos globais, frequentemente recorre ao uso da força. O ataque na Nigéria se alinha a outras ofensivas contra supostos terroristas na Somália, Iêmen e Síria, e até mesmo contra instalações nucleares iranianas, marcando um primeiro ano de seu segundo mandato com foco significativo em intervenções militares.
Trump justificou a ação de Natal com uma retórica contundente, afirmando ter avisado os terroristas que “pagariam caro” pelo “massacre de cristãos”. Ele revelou ao Politico que a operação foi intencionalmente adiada para o dia 25 de dezembro para servir como um “presente de Natal”, atingindo os acampamentos inimigos com força quando menos esperavam. Essa visão, porém, gerou atrito com as autoridades nigerianas.
Divergências sobre a Natureza do Conflito
As autoridades nigerianas rejeitaram veementemente a caracterização do conflito feita pela Casa Branca, interpretada como uma “nova cruzada”. O ministro Tuggar enfatizou que a ameaça terrorista na Nigéria não é um conflito religioso, mas sim uma complexa questão de segurança regional.
Ele afirmou que “rótulos simplistas não resolvem ameaças complexas” e reiterou que os ataques norte-americanos foram baseados em informações de inteligência fornecidas pelo governo de Abuja, após conversas entre o chefe da diplomacia nigeriana e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Os Estados Unidos, por sua vez, mantiveram sigilo sobre os detalhes das operações, divulgando apenas um vídeo do lançamento de mísseis. O Ministério da Defesa da Nigéria, no entanto, informou que os alvos eram membros do grupo Estado Islâmico tentando entrar no país pelo corredor do Sahel, na região de Sokoto, onde um bispo local havia negado perseguição a cristãos em outubro.
Foram utilizados drones MQ-9 Reaper, que dispararam 16 munições guiadas por GPS, neutralizando os extremistas.
Analistas de segurança, como Confidence MacHarry da SB Morgen Intelligence, em Lagos, veem esses ataques como um “sinal de algo maior”, antecipando que futuras operações podem causar danos ainda mais significativos. A Nigéria, o país mais populoso da África com 230 milhões de habitantes, dividida quase igualmente entre muçulmanos e cristãos, enfrenta décadas de violência.
Especialistas como Ebenezer Obadare, do Conselho de Relações Exteriores, sugerem que as autoridades nigerianas finalmente reconheceram a necessidade de ajuda externa para lidar com a instabilidade, e os EUA parecem dispostos a oferecer esse apoio, apesar das tensões retóricas. Em novembro, Trump já havia ameaçado ação militar se os ataques continuassem, um aviso que precedeu o sequestro de mais de 200 crianças, posteriormente libertadas.