Nunca foi tão fácil transformar a vida em vitrine. O mundo digital, que nasceu sob a promessa da liberdade, comunicação e democratização do saber, tornou-se em uma máquina silenciosa de monetização da existência.
Agora as expressões dominantes são curtidas, visualizações, engajamento e seguidores, isso converteu as principais experiências humanas, os afetos, as dores, opiniões, corpos e até silêncios, em ativos negociáveis. O que antes era vivido, hoje é o estigma da performance. Jovens crescem aprendendo, sem perceber, que existir não basta: é preciso render, aparecer, ser visto, ser percebido.
O sucesso não é mais uma construção interior, é sobretudo estatística pública. A monetização da vida não é apenas econômica; é simbólica. Ao transformar “gestos” em potencial conteúdo, o mundo digital dissolve fronteiras entre o ser, o parecer, e o aparentar. A identidade torna-se um projeto de marketing pessoal.
Resistir à monetização da vida é, em última instância, um ato ético e político. A vida não é produto, o tempo não é apenas recurso, o valor não é calculado. Recuperar valores exige reaprender a separar visibilidade de valor, sucesso de sentido, fama de realização. Nem tudo o que importa pode ser monetizado, e aí justamente que reside a sua maior dignidade.


