“Coincidência temporal infeliz”. É essa a conclusão da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) a respeito da tentativa de assalto a mão armada a uma padaria na QS 118 de Samambaia (DF), em 4 de janeiro deste ano. Dois dos envolvidos inicialmente tidos como autores do crime, são, na verdade, vítimas do único assaltante do caso. Para agravar a situação, eles foram baleados por dois militares à paisana e ainda se recuperam dos ferimentos.
Cléia Maria da Silva, 44 anos, e Thiago Soares, 40, estavam juntos em uma motocicleta — Thiago pilotando, e Cléia, na garupa. Eles haviam se encontrado em uma festa em Ceilândia (DF) e partiam para um encontro a dois, quando, por volta das 22h10, encostaram na esquina próxima à padaria para perguntar às pessoas se havia algum motel na região, exatamente no momento em que acontecia a tentativa de assalto.
O homem que tentou roubar a padaria foi identificado como Paulo Henrique Pereira de Almeida, 28. Ele havia chegado de moto há poucos minutos, às 22h, acompanhado de um comparsa para cometer o crime. Uma funcionária da panificadora entrou em um supermercado próximo pedindo ajuda, quando dois militares à paisana que faziam compras no estabelecimento decidiram intervir.
Os militares são Zedequias Augusto Nunes, 56, suboficial da reserva da Marinha do Brasil, e Haroldo Noleto, 52, primeiro-sargento da reserva do Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF).
Quando os militares chegaram à padaria onde estava ocorrendo o assalto, atiraram no comparsa do criminoso, que fugiu na moto e deixou o ladrão sozinho. O assaltante, então, tentou fazer uma funcionária da panificadora de refém, mas desistiu, deixou cair o dinheiro roubado do caixa do estabelecimento e saiu correndo atirando contra os militares à paisana. A partir daí Cléia Maria e Thiago são envolvidos na ocorrência.
O ladrão correu no rumo de Cléia e Thiago e tentou tomar a moto dos dois para fugir. Nesse momento, os militares Zedequias e Haroldo atiraram nos três. Paulo, o único assaltante identificado de toda a história, foi baleado; Cléia e Thiago, que não tinham relação com o crime, também foram atingidos. O comparsa de Paulo conseguiu escapar e ainda não foi identificado.
Cléia foi atingida nas costas e na barriga. Uma das balas atravessou órgãos da vítima, que ainda carrega bolsa de colostomia devido aos ferimentos. Thiago foi atingido no ombro direito e no dedo da mão direita. Eles foram levados pelo CBMDF ao Hospital de Base, onde ficaram internados por três dias. Os militares não foram baleados.
Veja imagens cronológicas dos fatos:
Momento em que Paulo Henrique e o comparsa chegam para assaltar a padaria
Material obtido pelo Metrópoles
Eles se preparam para invadir o comércio armados
Material obtido pelo Metrópoles
Ambos entram na padaria e anunciam o assalto; depois, o comparsa de Paulo sai do local e monta na moto para ficar pronto para a fuga
Material obtido pelo Metrópoles
Paulo Henrique aponta a arma para os funcionários da padaria (à direita)
Material obtido pelo Metrópoles
Os militares da reserva Zedequias Nunes e Haroldo Noleto chegam às proximidades da padaria
Material obtido pelo Metrópoles
Eles percebem o comparsa de Paulo e atiram. Não se sabe se o indivíduo foi atingido, uma vez que ele fugiu e ainda não foi localizado
Material obtido pelo Metrópoles
Paulo Henrique ouve os tiros e puxa uma funcionária da padaria para sair do local fazendo-a de refém, concluiu a PCDF
Material obtido pelo Metrópoles
Ele desiste de carregar a funcionária, sai correndo da panificadora e começa a trocar tiros com os militares
Material obtido pelo Metrópoles
Simultaneamente, mas sem nenhuma relação com o assalto, Thiago e Cléia chegam ao local e encostam na esquina, próximo ao carro azul, para pedir uma informação
Material obtido pelo Metrópoles
Neste momento, Paulo Henrique corre em direção à moto onde Cléia e Thiago estavam e tenta roubar o veículo para fugir. O militar Haroldo, então, se aproxima e atira
Material obtido pelo Metrópoles
Os tiros disparados por Haroldo levaram tanto o assaltante quanto as vítimas Cléia e Thiago ao chão
Material obtido pelo Metrópoles
Baleados e presos
Os erros que prejudicaram a vida de Cléia e Thiago não pararam por aí. Em 5 de janeiro, dia seguinte ao ocorrido, a 1ª Vara Criminal de Samambaia, do Tribunal de Justiça do DF (TJDFT), realizou audiência de custódia mesmo com ambos hospitalizados. Tanto os dois quanto Paulo Henrique, o verdadeiro assaltante, tiveram a prisão preventiva decretada.
Cléia teve alta na noite de 7 de janeiro e imediatamente foi levada à Penitenciária Feminina do DF, a Colmeia, onde ficou dias presa. No mesmo dia, a PCDF percebeu o equívoco e solicitou à Justiça a revogação da prisão preventiva dela e de Thiago.
“O aprofundamento da investigação, a análise minuciosa das imagens de segurança e as diligências complementares demonstraram que Cléia e Thiago não participaram da empreitada criminosa”, diz o requerimento policial. “A presença de Cléia e Thiago no cenário do crime decorreu de mera coincidência temporal infeliz, tendo sido eles, na verdade, vítimas da tentativa de roubo de veículo perpetrada por Paulo Henrique em sua fuga desesperada, e subsequentemente vítimas dos disparos efetuados no contexto da intervenção militar“, elucidou a PCDF.
O relatório final do inquérito policial, emitido em 8 de janeiro, confirmou o erro judicial e desindiciou Cléia e Thiago. “Verificou-se que Paulo Henrique [o assaltante], ao perceber a fuga de seu comparsa […] deixou a padaria e imediatamente se dirigiu à motocicleta ocupada por Thiago e Cléia, na tentativa de subtrair o veículo para viabilizar sua própria fuga. O registro visual comprovou que Thiago ofereceu resistência à abordagem do criminoso, demonstrando surpresa e ausência de qualquer conivência com a ação delituosa”.
“Restou esclarecido que Thiago Gomes Soares e Cléia Maria Soares da Silva foram, na verdade, vítimas de uma tentativa de roubo (subtração da motocicleta) perpetrada por Paulo Henrique durante sua fuga, bem como vítimas acidentais dos disparos efetuados no contexto da intervenção legítima dos militares”, encerra o inquérito no que diz respeito às vítimas.
Ainda em 8 de janeiro, a prisão foi revogada pela 1ª Vara Criminal de Samambaia. “Cumpre ressaltar que tanto a autoridade policial [PCDF] quanto o Ministério Público [MPDFT], órgãos primariamente responsáveis pela persecução penal, manifestaram-se favoravelmente à revogação da prisão preventiva. Tal convergência possui especial relevo à luz do princípio acusatório”, considerou o juiz de direito substituto Joel Rodrigues Chaves Neto.
Em 9 de janeiro, enfim, Cléia e Thiago foram postos em liberdade, e o processo que os acusava de roubo foi arquivado cinco dias depois. Já Paulo Henrique, que tentou assaltar a padaria, segue preso.
Outro lado
O Metrópoles tentou contato com Zedequias Augusto Nunes e tenta localizar Haroldo Noleto, militares aposentados que atiraram nas vítimas acreditando tratar-se de três assaltantes. Havendo retorno, a reportagem será atualizada com versões das partes.