A reestruturação das cooperativas de catadores de materiais recicláveis no Recife está promovendo transformações significativas na gestão de resíduos sólidos, convertendo-a em um meio de inclusão social e emancipação econômica. A transição do trabalho informal para o cooperativismo, junto a investimentos em infraestrutura e adequação fiscal, permitiu que os trabalhadores vissem seus rendimentos mensais aumentarem de faixas entre R$ 200 e R$ 600 para patamares que alcançam R$ 3.000,00.
Na Cooperativa Recicla Torre, situada no bairro da Torre e fundada há duas décadas, a trajetória da atual presidente, Alexsandra Maria, exemplifica os impactos dessa reorganização. Após enfrentar um relacionamento violento, Alexsandra encontrou na coleta de materiais recicláveis a sustentação necessária para criar seus sete filhos. "Meu marido batia bastante em mim e dizia que eu não ia arrumar trabalho nenhum por conta da quantidade de filhos. Eu botei na minha cabeça que tinha que arrumar um trabalho e deixar ele, porque não ia viver aquela vida. Consegui criar meus sete filhos na reciclagem", afirmou.
O modelo de trabalho na cooperativa passou por uma transformação significativa, deixando para trás a prática individualizada, onde cada membro recolhia e vendia seu material separadamente, o que gerava disputas internas e baixa rentabilidade. A mudança estrutural foi possível graças à implementação de uma gestão coletiva e à melhoria da infraestrutura, com acompanhamento da prefeitura do Recife e parcerias com instituições, como a empresa de gestão ambiental Ambipar.
Essa reestruturação se baseou em quatro pilares principais: a gestão financeira agora se dá pelo rateio igualitário dos lucros mensais; a infraestrutura foi aprimorada com a instalação de esteiras de triagem, prensas e elevadores de carga; a segurança ocupacional foi priorizada com a entrega de fardamento e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs); e a regularização jurídica garantiu a adequação documental necessária.
Mateus Emílio, um dos trabalhadores da cooperativa, relembra as dificuldades enfrentadas anteriormente. "Na época, a gente trabalhava num galpão muito pequeno e apertado. Quando chovia, entrava água. Hoje a gente tá em outra localização, num galpão adequado, com maquinário. A gente fica mais valorizado, com um olhar mais profissional dentro da cooperativa", comentou.
Apesar dos avanços em produtividade, as cooperativas ainda enfrentam desafios operacionais, especialmente na triagem inicial dos materiais. A falta de separação correta dos resíduos nos domicílios e condomínios resulta na contaminação dos recicláveis, levando insumos que poderiam ser aproveitados a serem descartados em aterros sanitários. Para os trabalhadores, o reconhecimento de sua atividade está ligado à conscientização da população sobre o papel socioambiental desempenhado pelas cooperativas.