A mobilidade urbana no Brasil tem enfrentado desafios significativos, refletindo a falta de prioridade administrativa e política em relação ao transporte público coletivo. A recente decisão do governo federal de investir R$ 3 bilhões na construção da megaponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica, a maior da América Latina, trouxe à tona a comparação com a situação do Metrô do Recife. Este sistema metropolitano, que atende a uma parcela significativa da população, vive um cenário de abandono e crise financeira há mais de uma década.
Para a realização da obra da ponte, o governo alocou facilmente R$ 3 bilhões. Em contrapartida, o Metrô do Recife deverá contar com um investimento de R$ 4 bilhões, um valor que já se mostra insuficiente para revitalizar o sistema. A urgência pela recuperação do metrô é evidente, considerando que ele serve diariamente cerca de 168 mil usuários, número que já chegou a quase 400 mil, e que há cinco anos enfrenta sérias dificuldades operacionais.
A nova Ponte Salvador-Ilha de Itaparica não apenas se destaca como uma das maiores obras de infraestrutura do País, mas também promete novas vias de acesso e a duplicação de trechos da BA-001. O custo total da obra é estimado em R$ 11,6 bilhões, com R$ 3,1 bilhões provenientes de recursos federais e R$ 5,5 bilhões de uma concessionária chinesa, dentro de um contrato de concessão de 35 anos. O projeto prevê cinco anos de construção, seguido por 29 anos de operação, que incluirá a cobrança de pedágio.
A construção da ponte poderá beneficiar mais de 10 milhões de pessoas. Entretanto, a disparidade entre os investimentos no setor rodoviário e os recursos destinados ao transporte público levanta questionamentos sobre as prioridades do Brasil. A realidade é que, enquanto o Metrô do Recife luta para se manter, a megaponte avança com um investimento quase equivalente ao que será direcionado ao sistema de transporte sobre trilhos, que ainda carece de recursos para custeio operacional, colocando em risco a segurança de passageiros e trabalhadores.
A situação reflete um padrão rodoviarista que predomina no Brasil, onde o transporte individual é frequentemente priorizado em detrimento das soluções de mobilidade urbana coletiva. O temor é que, enquanto a Ponte Salvador-Ilha de Itaparica se torna uma realidade, o Metrô do Recife continue a definhando, com lenta e escassa requalificação.
A realidade é desalentadora, e muitos questionam se haverá um dia em que a mobilidade urbana coletiva receberá a devida atenção e investimento que merece no Brasil.