Em audiência pública realizada no Senado no dia 7 de julho de 2026, especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares debateram a necessidade de restrições à publicidade relacionada às apostas de quota fixa, conhecidas como bets. A discussão centrou-se principalmente na participação de influenciadores digitais, atletas e clubes de futebol, que, segundo os participantes, intensificam a exploração de grupos vulneráveis e agravam problemas como o vício em jogos, endividamento e questões de saúde mental.
O evento foi promovido em conjunto pela Comissão de Direitos Humanos (CDH) e pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS). O senador Eduardo Girão, do Novo-CE, posicionou-se favoravelmente à proibição das bets, afirmando que a regulamentação atual no Brasil é insuficiente para mitigar os impactos negativos sociais e econômicos desse setor. Girão sugeriu que, antes de considerar uma proibição definitiva, o país deveria interromper imediatamente a publicidade das apostas, especialmente aquelas que envolvem influenciadores e a associação das marcas de apostas ao futebol.
"Sou totalmente contra as bets. Mas acabar com a publicidade é 'para ontem'. Façam um decreto, uma portaria. Não pode haver influenciadores nem atletas promovendo apostas. É uma combinação explosiva. Quando a pessoa vê a camisa do seu time estampada com o nome de uma bet, ela pode pensar que está ajudando o próprio clube ao apostar", declarou o senador.
Jéssica Lobo, conhecida como “desinfluenciadora de jogos de aposta”, compartilhou sua experiência pessoal, que a motivou a atuar contra a divulgação das bets. Ela explicou que começou essa luta após a morte de sua irmã, Ângela Maria, em dezembro de 2023. Jéssica revelou que a família descobriu transferências financeiras feitas pela irmã para plataformas de apostas, o que resultou em um comprometimento severo da saúde financeira dela.
"A banca sempre ganha", enfatizou Luciana Telles, ressaltando os riscos associados aos jogos de azar. O defensor público de São Paulo, Marcelo Dayrell Vivas, também destacou a preocupação com a maior exposição dos grupos vulneráveis às apostas. Ele mencionou que cerca de 75% dos apostadores possuem até o ensino médio completo ou menos, aproximadamente 65% são pessoas pretas e pardas e uma parcela semelhante vive em famílias com renda mensal de até três salários mínimos.
Marcelo Chaves Aragão, representante do Tribunal de Contas da União (TCU), alertou para os riscos ampliados pela combinação de publicidade intensa, acesso facilitado por dispositivos móveis e a falta de medidas preventivas. "Ao continuar com essa propaganda massiva, com a participação de celebridades e influenciadores, sem medidas efetivas de prevenção, vamos colocar em xeque toda a política pública de saúde. Se não houver essa restrição, vamos continuar enxugando gelo", concluiu Aragão.