A paixão nacional pelo peixe português impulsiona o mercado, mas especialistas alertam para os riscos de uma pesca desordenada e seus impactos futuros.
O consumo de bacalhau dispara no Brasil, impulsionado por melhor qualidade e poder aquisitivo. Contudo, a pesca desordenada ameaça os cardumes, preocupando o setor.
O bacalhau, um ícone da culinária portuguesa e estrela nas mesas brasileiras, vive um momento de glória no Brasil, com o consumo atingindo patamares históricos. O peixe, pescado nas águas geladas da Noruega e mestremente processado em Portugal – país que detém o maior consumo proporcional do mundo –, conquistou definitivamente o paladar nacional.
No entanto, essa crescente paixão está acendendo um alerta entre os produtores e especialistas, que temem que a expansão desordenada da pesca possa comprometer a sustentabilidade dos cardumes e gerar uma crise no setor de processamento.
Historicamente, o bacalhau chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses, sendo por muito tempo associado a uma proteína de baixo custo, especialmente os tipos de menor qualidade. Contudo, essa percepção mudou drasticamente nos últimos anos. O aumento da oferta de produtos de melhor qualidade no mercado interno, a experiência de brasileiros em viagens a Portugal que revelaram a versatilidade e o sabor do peixe, o maior poder aquisitivo da população e a vasta divulgação de receitas na internet contribuíram para uma explosão no consumo, com predileção pelos cortes mais nobres.
Ameaça aos Cardumes e ao Setor de Processamento
A euforia do mercado, porém, vem acompanhada de uma preocupação séria. Empresas portuguesas, que são pilares na transformação do bacalhau, observam com apreensão o ritmo da demanda.
Existe um temor real de que a captura do peixe nos mares nórdicos se expanda sem o devido controle e planejamento, colocando em risco a manutenção dos cardumes. Essa situação pode levar a um desequilíbrio ecológico e, consequentemente, a uma escassez da matéria-prima.
Uma eventual crise na oferta de bacalhau teria impactos profundos não apenas no ecossistema marinho, mas também na economia e na cultura. Para Portugal, onde o processamento do bacalhau é uma arte centenária e um pilar econômico, a perspectiva de uma escassez significa uma ameaça direta a milhares de empregos e a uma tradição gastronômica rica em mais de 300 receitas catalogadas.
A elevação dos preços, já observada, seria apenas um dos sintomas de um problema maior.
Para o Brasil, que se rendeu ao bacalhau como sinônimo de boa mesa, a manutenção da oferta é crucial. A dependência do produto importado, especialmente o processado em Portugal, torna o mercado brasileiro vulnerável a flutuações na disponibilidade e no custo.
É fundamental que haja um diálogo entre os países produtores e consumidores, visando a implementação de práticas de pesca sustentáveis que garantam a preservação dos cardumes para as futuras gerações e a estabilidade de um mercado que é culturalmente tão relevante.