Estudo da OCDE em 31 países revela declínio na aptidão intelectual de adultos, associado à cultura digital e ao consumo superficial de informações.
Uma pesquisa da OCDE revela que a cultura digital prejudica a aptidão intelectual de adultos em 31 países, impactando matemática e leitura.
Um recente estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado a cada dez anos em 31 de seus países-membros, trouxe à tona um alerta preocupante sobre o impacto da cultura digital na aptidão intelectual de adultos. A pesquisa revela uma diminuição do desempenho em matemática e leitura ao longo da última década, afetando indivíduos que já concluíram o ensino básico e que agora demonstram incapacidade para resolver problemas simples do cotidiano.
O “Survey of Adult Skills” desvincula a eficiência educacional do nível econômico de um país, enfatizando que o crucial são as escolhas acertadas para manter a capacidade de aprender e aplicar o conhecimento ao longo da vida. Habilidades como a leitura de bulas de remédios e a resolução de contas bancárias básicas estão entre as aptidões investigadas.
Enquanto nações como Finlândia, Noruega e Japão mantêm resultados satisfatórios, países como Chile, Itália, Portugal e Estados Unidos registraram quedas significativas. Notavelmente, Japão e Finlândia priorizam o ensino presencial tradicional, com restrições ao aprendizado exclusivamente digital.
Contudo, a preferência pelo ensino presencial não é suficiente para mitigar os desafios da cultura digital. A superficialidade das telas, onde as informações deslizam rapidamente ao toque dos dedos, parece levar a consequências que vão além do âmbito cultural, impactando também a economia. Observa-se um paradoxo contemporâneo: a vastidão de informações disponíveis não se traduz em melhor compreensão, mas sim em um “consumo” de dados que são rapidamente descartados ou esquecidos, à medida que se avança para o próximo conteúdo igualmente fugaz.
A Devastação Cultural da Digitalização
A professora Maria do Rosário Longo Mortatti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em entrevista à revista Veja, aponta que o problema transcende o recuo de habilidades avaliadas ou a insuficiência da educação escolar. Para ela, é um reflexo de fenômenos mais amplos, conectados às demandas cotidianas cada vez mais complexas.
A questão, embora inicialmente educacional, não se restringe a ela, dada a “devastação cultural associada à digitalização de tudo”, que afeta não apenas a população jovem, mas todos expostos aos efeitos corrosivos das telas.
No Brasil e em diversas outras partes do mundo, a proibição do uso de celulares em sala de aula emergiu como uma medida necessária para conter o vertiginoso declínio no aprendizado, intensificado durante os anos da pandemia de Covid-19. Os primeiros indícios apontam para uma melhoria no desempenho escolar após a implementação dessas restrições.
Fora do ambiente escolar, em casa, no trabalho e nas interações sociais, a atenção individual é crucial para evitar o “abismo da desinformação” gerado pelo excesso de informações.