Relatório da Instituição Fiscal Independente aponta para gestão fiscal de curto prazo e metas menos ambiciosas, visando apenas o cumprimento formal do déficit zero.
A IFI alerta que o governo federal priorizará o equilíbrio fiscal de curto prazo em 2026, ano eleitoral e de Copa do Mundo, adiando reformas estruturais.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) divulgou seu primeiro Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de 2026, indicando que o governo federal concentrará seus esforços em uma gestão fiscal de curto prazo. Em um cenário marcado por eleições e pela Copa do Mundo, a expectativa é de que medidas estruturais mais robustas sejam adiadas, com o foco principal no cumprimento formal da meta fiscal.
O relatório aponta para um contexto de contenção e metas menos ambiciosas para as contas públicas federais.
De acordo com a IFI, o ano eleitoral dificulta a adoção de ações fiscais consideradas “heroicas”, seja no aumento de tributos ou em cortes expressivos de gastos. O diretor da IFI, Alexandre Andrade, explicou que “no ano eleitoral dificilmente ocorrerão movimentos ou ações que corrijam essa dinâmica que a gente tem observado nas contas públicas nos últimos anos, particularmente do lado do gasto, do lado da despesa”.
A estratégia governamental, portanto, deve se voltar para zerar o déficit primário em 2026, em vez de buscar o centro da meta de superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB).
Essa meta de déficit zero contrasta significativamente com o superávit primário superior a 2% do PIB que a IFI considera necessário para estabilizar a trajetória da dívida pública. A prática de perseguir o limite inferior da meta, observada em anos anteriores, pode, segundo Andrade, “implicar numa perda de credibilidade da política fiscal e os agentes econômicos podem passar a ter dúvida, a ter incerteza”. A ausência de apoio parlamentar para medidas mais ousadas em um ano eleitoral reforça essa tendência.
Desempenho Fiscal e Desafios Estruturais
O relatório também destaca que a economia brasileira segue aquecida, com o hiato do produto estimado em 0,5%, indicando um ritmo de crescimento real acima do PIB potencial. Contudo, a IFI projeta um resultado primário estrutural negativo de 0,9% do PIB, sinalizando uma fragilidade na dinâmica fiscal de médio prazo que não é mascarada por flutuações econômicas passageiras.
Analisando o desempenho de 2025, o documento revela um déficit primário efetivo de R$ 61,7 bilhões (0,5% do PIB), apesar do cumprimento formal da meta fiscal dentro da margem de tolerância. A arrecadação federal cresceu 3,2% acima da inflação, mas a despesa primária avançou 3,4% em termos reais, elevando seu patamar para 18,8% do PIB.
Esse desequilíbrio contribuiu para o aumento da dívida bruta do governo central em 7,3 pontos percentuais do PIB entre dezembro de 2022 e novembro de 2025, atingindo 79% do PIB.
O Orçamento-Geral da União de 2026, detalhado no RAF, mostra que as alterações desde sua apresentação elevaram o volume de despesas fora do teto de gastos de 6,7% para 8,2% do total, correspondendo a R$ 230,7 bilhões. Para a IFI, essas mudanças sucessivas fragilizam a capacidade do arcabouço fiscal de ancorar expectativas.
Além disso, o relatório alerta para a redução da capacidade de investimento do governo federal, que soma apenas 0,76% do PIB e 3,9% das despesas líquidas totais, refletindo um “estrangulamento” do orçamento público e representando um obstáculo para a retomada de um crescimento econômico sustentável.