Especialista em segurança aponta dependência militar europeia, limitando reações a possíveis movimentos de Donald Trump no Ártico.
A Europa, militarmente dependente dos EUA, não reagiria a uma eventual invasão da Groenlândia por Trump, alerta analista, evidenciando um dilema diplomático.
A Europa se encontra em um dilema geopolítico complexo diante das ambições do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à Groenlândia. Após semanas de pressão e ameaças tarifárias com o objetivo de anexar a ilha, Trump afirmou ter chegado a um acordo com a OTAN em 21 de agosto.
Contudo, quase 20 dias depois, os detalhes desse suposto acordo permaneciam desconhecidos, enquanto líderes europeus como Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Mette Frederiksen se reuniam para reafirmar o apoio à soberania dinamarquesa sobre o território ártico.
Paralelamente, Trump, envolvido em disputas orçamentárias internas, pareceu temporariamente desviar o foco da Groenlândia, concentrando suas declarações em temas como Irã, Venezuela e alegações infundadas sobre as eleições de 2020. Em 4 de setembro, a União Europeia decidiu retomar as tratativas para um acordo comercial com os Estados Unidos, um movimento interpretado como um sinal de arrefecimento das tensões. No entanto, a questão da Groenlândia continua a ser um ponto de intensa discussão nos centros de poder europeus, dada a preocupação com a postura intervencionista de Washington.
O Dilema da Dependência Militar
Segundo o analista militar Carlo Masala, diretor do Centro de Inteligência da Universidade das Forças Armadas alemãs, caso uma invasão da Groenlândia se concretize, a Europa não reagiria. “Se imaginarmos que ele conquiste a Groenlândia militarmente, não acredito que a Europa fará algo”, afirmou Masala.
Ele ressalta que a presença de cerca de 70 mil soldados americanos em bases europeias, legado da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, e a posse de armas nucleares dos EUA em países como Holanda, Itália e Alemanha, criam uma dependência que impede uma oposição mais contundente.
“Ninguém quer se envolver em uma guerra contra os Estados Unidos”, explicou Masala, acrescentando que a Europa não está preparada para se defender sozinha diante de uma potencial invasão russa sem o apoio americano. Esse cenário justifica a estratégia de apaziguamento adotada por Berlim, que tem evitado críticas duras a Washington.
O governo alemão, liderado por Friedrich Merz, tenta “conquistar” Trump, aceitando exigências e buscando acomodação, impulsionado pelo temor de que, sem os americanos, o continente fique indefeso.
No entanto, Masala argumenta que a eficácia dessa estratégia atingiu seu limite com a pressão explícita dos Estados Unidos pela anexação da Groenlândia. “Já está claro que não é possível mudar a posição de Trump por um período significativo”, disse.
Ele sugere que é hora de adotar uma “linguagem mais clara contra os Estados Unidos”, reconhecendo que a tática de apaziguamento se esgotou.
O analista também aponta para a existência de forças dentro da Casa Branca interessadas em enfraquecer as lideranças europeias e desmantelar a União Europeia, vista como um obstáculo nas negociações. Essa estratégia explicaria o apoio de Washington a partidos de ultradireita na Europa, como AfD na Alemanha e Reunião Nacional na França, que são hostis ao bloco.
Contudo, Masala observa que a campanha de Trump pela Groenlândia fez com que esses partidos reavaliassem sua proximidade com o ex-presidente, percebendo uma reação negativa da população europeia.
Finalmente, Masala traça um paralelo entre a visão dos EUA para a América Latina e a Europa. Enquanto a América Latina é vista como “seu quintal”, a Europa é considerada “irrelevante”.