A questão sobre a efetividade da Justiça em Brasília ressurge a cada decisão do STF, gerando incertezas em um ambiente democrático. Essa dúvida se assemelha à de um moleiro da antiga Prússia no século XVIII, que, diante da ameaça de perder seu moinho para o rei Frederico II, afirmou que só cederia se não houvesse juízes em Berlim.
O moleiro, protegido pela amizade com Voltaire, conseguiu manter seu moinho, que permanece de pé até hoje, abrigando um museu. O poeta e advogado François Andrieux imortalizou essa história, que se tornou uma referência em tribunais e na mídia, simbolizando a resistência contra o arbítrio.
No entanto, a obra de Andrieux, intitulada Le Meunier de Sans-Souci, apresenta um desfecho que ressalta a dualidade do poder: enquanto o moleiro conseguiu preservar sua propriedade, o rei não hesitou em confiscar minas de carvão na Silésia e causar incêndios em diversas partes da Europa, o que ilustra a complexidade das relações de poder.
A crença na existência de juízes na Berlim do século XVIII contrasta com a realidade de Milão no século anterior, onde a Justiça falhou de maneira trágica. Ao perambular pela Feltrinelli de Milano Centrale, o autor encontrou o livro de Alessandro Manzoni, Storia della Colonna Infame, que retrata uma das mais sombrias injustiças da história.
No enredo, o agente Guglielmo Piazza tortura o barbeiro Giangiacomo Mora, implicando-o em um crime que não cometeu. Os juízes, ao invés de buscarem a verdade, se entregam à pressão popular e à superstição, resultando em um processo legal distorcido que culmina na execução dos inocentes.
Após a cruel condenação, a casa de Mora foi demolida e uma coluna de pedra, a Coluna Infame, foi erguida para eternizar a infâmia dos magistrados que perpetraram tais atrocidades. Essa coluna, que simbolizava a injustiça, foi derrubada no século seguinte, durante o Iluminismo, um período que buscou a razão e a verdade.