A maior emergência humanitária do mundo, que começou em abril de 2023, ocorre no Sudão, não em Gaza ou na Ucrânia. O conflito entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (RSF) resultou em uma violência devastadora no país. Estimativas indicam que até 400 mil pessoas já perderam a vida, enquanto 12 milhões foram deslocadas internamente e 25 milhões enfrentam a fome.
Tom Perriello, ex-enviado especial dos EUA para o Sudão, destacou a significativa discrepância entre a gravidade da crise e a cobertura midiática, que ele considera extremamente limitada. Ele observa que a dimensão do sofrimento dos sudaneses não está sendo refletida na atenção global, que tem se concentrado em outras regiões, como o Oriente Médio e a Europa Oriental.
Um ataque recente em El Fasher, em outubro, onde combatentes da RSF massacraram civis, recebeu alguma cobertura, mas isso apenas sublinha o quanto a guerra no Sudão tem sido ignorada pela mídia internacional. As redações enfrentam dificuldades financeiras, o que contribui para a falta de cobertura em crises que não são vistas como prioritárias.
Historicamente, o Sudão já foi foco de atenção midiática. Há duas décadas, a violência em Darfur, que resultou na morte de até 300 mil pessoas, atraiu a indignação mundial, levando a classificações de genocídio e mobilizando ativistas e celebridades. Atualmente, a percepção é de que apenas 10% da guerra em curso tem sido coberta adequadamente.
Esse cenário levanta a questão sobre a responsabilidade da mídia em relatar crises humanitárias. Se uma situação tão grave quanto a do Sudão não gera uma cobertura robusta, que tipo de situação justificaria uma atenção maior? A situação atual enfatiza a necessidade de um compromisso mais forte com a Liberdade de Imprensa e a cobertura de crises em regiões frequentemente negligenciadas.
O jornalista independente Isma’il Kushkush, que tem experiência em importantes publicações internacionais, observa que a crise no Sudão não é apenas um problema local, mas uma questão que exige atenção global. A parceria entre organizações de mídia e iniciativas de Liberdade de Imprensa pode ser crucial para assegurar que vozes locais sejam ouvidas e que a cobertura midiática reflita a realidade vivida por milhões de sudaneses.