A escolha dos partidos que compõem o Centrão de não apoiar Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da próxima eleição presidencial está fundamentada em uma estratégia que vai além da busca por autonomia nas alianças estaduais. O cientista político Emerson Cervi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), analisa que os partidos de centro enxergam na disputa uma oportunidade de recuperar espaço que foi perdido para candidatos alinhados ao bolsonarismo nas últimas eleições.
Cervi observa que as eleições de 2018 e 2022 foram marcadas por uma elevadíssima taxa de renovação na Câmara dos Deputados. Ele ressalta que muitos deputados que perderam espaço foram substituídos por candidatos que se aproximaram do discurso e das pautas bolsonaristas, muitos deles com forte presença nas redes sociais. “Se você tem alta taxa de renovação, é porque quem se candidatou à reeleição perdeu. E, em geral, aquele deputado do Centrão que perdeu, perdeu espaço para um deputado muito mais próximo do discurso bolsonarista”, explicou.
Na análise do professor, essa mudança alterou a relação de forças dentro do espectro da direita. Candidatos que construíram uma audiência fora da política tradicional passaram a competir com deputados que já ocupavam mandatos e dispunham de estrutura partidária. “Era o candidato que vinha da internet. Ele podia até ser policial militar, mas policial militar com um canal no YouTube que tinha milhões de visualizações”, acrescentou.
Cervi acredita que o Centrão agora vê uma chance de reagir a esse fenômeno. “O Centrão tem agora uma oportunidade de equilibrar o jogo”, afirmou. Essa estratégia ajuda a elucidar a resistência dos partidos de centro em formar uma aliança nacional com Flávio Bolsonaro. Para os deputados desses partidos, apoiar o candidato do PL pode resultar em fortalecer, em suas próprias regiões, candidatos que disputam suas vagas na Câmara dos Deputados. “Para o baixo clero do Centrão se juntar ao Flávio, é perder espaço para um candidato do PL, lá do seu município ou da sua região”, destacou.
Esse cenário ajuda a explicar a possível escolha das direções nacionais dos partidos pela neutralidade na eleição presidencial no primeiro turno, uma vez que o ambiente é considerado competitivo, com um alto piso eleitoral.
Entretanto, o desafio reside no teto eleitoral. Flávio Bolsonaro precisaria ampliar sua votação para incluir segmentos do eleitorado que não fazem parte de sua base mais fiel. A neutralidade do Centrão dificulta esse movimento, pois reduz o número de deputados dispostos a apresentar Flávio a eleitores fora de sua base tradicional. “Quem leva o candidato a esse eleitorado é o deputado do Centrão”, observou Cervi.