Crianças e adolescentes de Pernambuco, por meio de suas vivências em relação à água, saneamento, moradia e desigualdade ambiental, contribuíram para o desenvolvimento de ilustrações que fazem parte da publicação intitulada "Pequenos grandes saberes: um glossário climático pelo olhar de crianças e adolescentes". Essa iniciativa foi realizada pela ActionAid Brasil em parceria com o Giral e contou com a participação de 116 jovens de Glória do Goitá e do Cabo de Santo Agostinho, que participaram de oficinas ao longo do projeto.
Embora o glossário inclua experiências de diversas regiões do Brasil, Pernambuco se destaca como um dos principais focos. O projeto, que se baseou na escuta das comunidades, reuniu percepções sobre os impactos ambientais que afetam o cotidiano das pessoas, transformando essas experiências em um espaço de reflexão coletiva.
Uma das ilustrações que compõem a publicação, criada pela estudante Gabrielle Araújo, retrata dois cenários opostos em uma mesma paisagem. De um lado, a falta de saneamento e estruturas precárias; do outro, áreas verdes, espaços de lazer e um ar mais limpo. No centro da imagem, uma menina observa essas realidades e parece se questionar sobre a disparidade entre elas. Para Gabrielle, a arte é uma forma de expressar o que observa em seu território e as desigualdades que o cercam. "Fiz um desenho sobre racismo ambiental e, com a atividade, aprendi que arte não é só pra enfeitar, é pra fazer pensar e lutar", afirmou.
Eveline Araújo, mãe de Gabrielle e educadora, acompanhou de perto o envolvimento da filha no projeto e expressou seu orgulho. "Ver minha filha participar de um projeto como este é um momento em que compreendemos que a falta de água, o saneamento precário e o calor extremo não são situações naturais, mas reflexos de desigualdades históricas", destacou.
A especialista em Educação e Infâncias da ActionAid Brasil, Carolina Silva, esclareceu que a elaboração do glossário foi resultado de três anos de trabalho nas comunidades. "No primeiro ano, abordamos a água; no segundo, o saneamento básico; e, no terceiro, a habitação. Durante esse tempo, percebemos que as crianças sentiam a necessidade de expressar como entendiam esses termos e como eles impactam suas vidas. É fundamental ouvi-las, pois elas têm muito a compartilhar", ressaltou Carolina.
As palavras do glossário são acompanhadas de desenhos, memórias e questionamentos que refletem a realidade vivida pelas crianças, transformando suas experiências diárias em uma voz coletiva. Essa iniciativa não apenas evidencia as desigualdades que permeiam o cotidiano, mas também reconhece a importância da expressão artística como ferramenta de conscientização e mudança social.