No início de 2023, uma visita a um parque eólico localizado próximo a Flecheiras, no litoral do Ceará, trouxe à tona questões importantes sobre a transição energética No Brasil. As turbinas, imponentes e girando com uma elegância hipnótica, evocaram lembranças de experiências anteriores, como a visita às Ilhas Falklands. Para profissionais da área climática, o cenário representa uma esperança, simbolizando a capacidade de gerar eletricidade a partir de fontes renováveis, sem emissões de carbono.
Entretanto, essa visão idealizada enfrenta um problema crucial: mesmo com a produção de energia, esta pode não alcançar seu destino final. Apesar de a energia ser gerada por parques eólicos e usinas solares, muitas vezes ela não é aproveitada, uma vez que a rede elétrica não consegue absorver ou transportar toda a eletricidade produzida. Durante anos, o foco das discussões foi a geração de energia limpa, celebrando o aumento da energia solar, da energia eólica e dos veículos elétricos. No entanto, a infraestrutura elétrica, que é menos visível, é igualmente essencial para o sucesso dessa transição.
As linhas de transmissão, subestações, transformadores e redes de distribuição são componentes fundamentais que fazem a eletricidade chegar a residências, hospitais, indústrias e escolas. Sem essa estrutura, a transição energética pode falhar, permanecendo estagnada na rede elétrica, onde poucos olham. A maneira como tratamos a eletricidade é curiosa: admiramos a produção, mas raramente consideramos o seu transporte. Essa situação pode ser comparada a celebrar uma colheita abundante sem ter estradas para levar os produtos ao mercado.
No Brasil, essa questão é ainda mais pertinente, pois a maior parte da energia eólica é gerada no Nordeste, onde os ventos são favoráveis. Contudo, a demanda por eletricidade está concentrada em outras regiões do país. A conexão entre essas áreas requer a construção de milhares de quilômetros de novas linhas de transmissão, além de um planejamento a longo prazo, investimentos significativos e diálogo com as comunidades que serão impactadas pelas obras.
À medida que a demanda por eletricidade aumenta, impulsionada pelo uso de veículos elétricos e pela descarbonização industrial, a necessidade de uma rede elétrica eficiente se torna ainda mais evidente. A verdadeira transição energética não se concretiza apenas com a geração de energia, mas sim quando essa eletricidade percorre longas distâncias e finalmente acende as luzes nas residências. Portanto, energia limpa que não chega ao seu destino é apenas um potencial desperdiçado, e a transição energética que permanece presa na rede corre o risco de não se materializar.